História

As Sociedades Moçambicanas Após a Fixação Bantu

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Após a fixação Bantu e antes do impacto colonial mercantil, que principiou no século XVI, as características mais gerais da sociedade moçambicana podem ser indicadas a quatro níveis:

Actividades Económicas

A base fundamental da economia consistia na agricultura de cereais, principalmente da mapira e mexoeira. Em algumas regiões a sul do rio Zambeze, essa actividade económica era acompanhada pela criação de gado bovino. A norte daquele rio, a recolecção constituía um contributo indispensável à dieta alimentar.

Actividades Complementares: A caça, pesca, olaria, tecelagem e metalurgia de ferro eram actividades complementares da agricultura, estavam bastante desenvolvidas, mas só em alguns casos, como por exemplo, no Estado de Zimbabwe, os artesãos puderam construir um grupo social reactivamente especializado e independente da agricultura.

A terra, meio de trabalho principal, era património da comunidade, onde todos tinham acesso a ela, mas cabia aos membros seniores a distribuição e o controlo da sua correcta exploração. Os excedentes agrícolas, quando existiam, e as produções artesanais ou o marfim, as peles e os minérios eram trocados entre as diferentes unidades de produção, quer a nível local, quer em mercados distantes. Estes excedentes, que eram possuídos por um grupo reduzido da população, geralmente os parentes mais velhos, herdeiros e guardiães das experiências e tradições da comunidade, contribuíram para o aparecimento de uma economia de exploração, através do pagamento do tributo, que podia ser em trabalho ou em género

Relações de Produção

A agricultura determinava as relações de produção permanente. A nível da comunidade aldeã, as Chefe da Linhagem unidades de produção constituíam-se em torno de um grupo de parentes consanguíneos definidos por via paterna a sul de Zambeze e por via materna a norte. Designa-se por linhagem um grupo de parentes que descendem de um antepassado comum através de uma filiação materna ou de uma filiação paterna.

Entre os Macuas, esse grupo de parentes era designado pelo termo Nlocko, entre os Ajaua por Liwele, entre os Cheua por Pfuko, entre os Tsonga por Ndangu e entre os Chona por Bvumbo. A pesca e a caça não configuravam nas relações de produção tão duráveis como na agricultura. No fim de cada caçada ou de cada campanha de pesca, os grupos desfaziam-se e o produto era dividido pelos participantes, segundo regras consuetudinárias bem definidas. A divisão técnica e social de trabalho fazia-se na base de sexo e idade. Como produtoras, as mulheres detinham uma certa autoridade e controlo sobre os celeiros, mas estavam geralmente excluídas da posse de bens mais valiosos e duradouros, como o gado

Organização Social e Política

A relação de produção baseada na estrutura de linhagens condicionou a criação de uma estrutura política, onde à frente de cada linhagem ou da família alargada estava um chefe (Mwene, Humu, Asyene Mbumba, etc.) com poderes políticos, jurídicos e religiosos e um conselho de anciãos. As funções políticas eram exercidas pelos homens, onde em algumas regiões, no sul do Zambeze, o poder passava do irmão mais velho para o irmão a seguir na idade, noutras regiões do pai para o filho e, noutras ainda, a norte do Zambeze, do tio materno para o sobrinho.

O solo era património das linhagens, cabendo ao chefe a função de assegurar periodicamente a distribuição das machambas pelos membros das diversas células produtivas de base, componentes da linhagem, a manutenção das relações entre os membros da linhagem, resolução de litígios, o controlo de impostos, o controlo das alianças matrimonial (por exemplo o lobolo no sul de Moçambique). A terra podia ser usada, mas não alienada

Em consequência de conquistas militares, a linhagem vencedora passava a exercer uma supremacia política sobre todas as outras, as quais por intermédio dos respectivos guardiães, principiava a pagar um tributo ao chefe da linhagem vencedora, chamado Mpewe, Mwene Alupale, Mwini Dziko, Fumu, Mambu, etc

O conjunto de chefes e anciãos constituía a classe dominante da sociedade. Surge, então, uma nova divisão social de trabalho, onde os produtores tinham de produzir cada vez mais um sob-produto para pagar o imposto. A classe dominante dos chefes e dos anciãos alargava-se rapidamente aos membros da linhagem do chefe do território, passando a constituir a aristocracia da sociedade. Abaixo da aristocracia estava a camada dos homens livres, também com as suas linhagens. As linhagens estrangeiras e recém chegadas pagavam um tributo bastante pesado e a sua condição era inferior à dos outros homens livres, e por fim encontravam-se os escravos domésticos. No norte de Moçambique, as linhagens estavam agrupadas em clãs (Nihimo, Lokolo, Mutupo, etc), cujo número era estável nas diferentes sociedades matrilineares

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